“Encontrarás mais nos bosques do que nos livros. As árvores e as pedras ensinar-te-ão coisas que nenhum homem poderá dizer-te.”
(Bernardo de Claraval)

Introdução
A Natureza é o melhor mestre dos homens; desenvolve-se e manifesta-se segundo as leis e princípios nela latentes. É a executora do Espírito, e como tal cumpre e orienta-se segundo arquétipos cósmicos. Como diz Jorge Livraga: «Podemos aprender através das marcas que Deus nos deixou na Criação».
A árvore representa uma manifestação muito especial das forças e do poder divino. Foi venerada em todas as culturas, em todos os tempos e esteve, desde os primórdios, intimamente relacionada com o Destino dos homens. A árvore é uma manifestação do divino, uma hierofania, uma expressão das forças criadoras da Vida Universal.
Nos seus primeiros tempos históricos a Europa estava coberta de selvas enorme, nas quais apareceram raras clareiras como ilhas num mar verde. A vida do homem nesse tempo estava estritamente ligada à selva e às árvores. A árvore alimentava as chamas, a madeira e o carvão de madeira foram até há bem pouco tempo os únicos combustíveis. Por isso a árvore fornece luz. Também proporciona madeira como matéria-prima, fácil de trabalhar e útil para muitos fins. As abelhas que habitam nas árvores produzem mel e cera. Além disso as árvores proporcionam alimentos básicos – não só frutos e bagos, mas sobretudo landes que se transformam em farinha e pão. Cedo se aprendeu a resinar as árvores e a transformar a resina em breu, alcatrão, perfumes, aromas e incenso. O homem viveu durante muito tempo com a árvore numa simbiose intensa. Por esse facto agradecia a sua presença, e via nela a origem do Mundo.

“A Natureza é o melhor mestre dos homens; desenvolve-se e manifesta-se segundo as leis e princípios nela latentes. É a executora do Espírito, e como tal cumpre e orienta-se segundo arquétipos cósmicos.”

Agora, no século XX, na Europa, encontramo-nos frente a um bosque totalmente desencantado. O cristianismo esforçou-se por exterminar todos os «cultos pagãos», e esse esforço viu-se completado pelo racionalismo militante e pelo positivismo materialista e ateu. A partir de então exploraram-se as matérias-primas com técnicas nocivas para o meio ambiente, construíram-se estradas gigantescas que atravessam o bosque, e este foi violado. Não contente, o homem usurpou ao bosque as suas fontes de vida: envenenou as águas e, através da destruição da camada de ozono, expôs-se aos perigosos raios cósmicos.
Desde há milénios que o homem sempre esteve ligado às árvores através de um laço místico. A pergunta que nos colocamos é esta: como é que pode continuar a viver uma humanidade que quebrou de forma tão brutal este laço?
Retomemos aquele tempo em que o homem vivia em união com a Natureza, podendo ler nela de forma directa. Em «illud tempore» manifestavam-se princípios cósmicos universais através da árvore. A árvore incarnava o Poder da Vida, representava aspectos do Divino e do Sagrado. Nunca foi venerada em si mesma, mas por aquilo que se manifestava através dela, por aquilo que ela incluía e significava. Por isso a árvore sempre foi considerada um objecto religioso, já que é, como figura biológica, um portador de símbolos. Assim se converte numa imagem do universo.

“Jorge Livraga: «Podemos aprender através das marcas que Deus nos deixou na Criação».”

“A IRMÃ ÁRVORE”, como é conhecida no seio dos grupos ecológicos da actualidade, pode nos ensinar imenso. Somente temos que decifrar a sua mensagem.

Formas de Veneração da Árvore
Existem numerosas formas de veneração de árvores e plantas. Para dar uma simples ideia, apresentamos aqui a classificação de cultos vegetais segundo Mircea Eliade:
A combinação de pedra-árvore-altar, um microcosmo real nos níveis mais antigos da vida religiosa (Austrália, Índia, Egeu).
A árvore como imagem do Cosmos (Índia, Mesopotâmia, Escandinávia, etc.).
A árvore como teofania cósmica (Mesopotâmia, Índia, Egeu).
A árvore como símbolo da Vida, da fecundidade inesgotável, da Realidade Absoluta, em relação com a Grande Deusa ou com o simbolismo da água identificada com a fonte da Imortalidade (a «Árvore da Vida», etc.).
A árvore como Centro do Mundo e como suporte do Universo (Escandinávia, Gália, etc.).
Laços místicos entre árvores e homens (árvores que se tornam homens, a árvore como ponto de reunião das almas dos antepassados, a boda das árvores, presença das árvores nos ritos iniciáticos, etc).
A árvore como símbolo da ressurreição da vegetação, da Primavera e do «renascimento» (por exemplo, a «árvore de Maio» nos países a norte dos Alpes, etc.).

As Três Formas de Simbolismo da Árvore
Manfred Lurker divide o simbolismo das árvores em três sectores, nos quais assenta a orientação deste trabalho. Lurker fala da árvore como:
Cosmos – a Árvore Cósmica
Bios – a Árvore da Vida
Logos – a Árvore do Conhecimento
Esta Trindade pode ser comparada aos três princípios do Triplo Logos Solar, ou Tríade. Vemos que estes três aspectos do simbolismo da árvore fundem-se, e que frequentemente se encontram reunidos numa árvore sagrada dois e, às vezes, os três aspectos.
1. A Árvore Cósmica
A Árvore Cósmica é frequentemente uma árvore invertida, uma «arbor inversa». Representa a Criação como um movimento descendente. As sementes espirituais da árvore encontram-se no céu, no Mundo Divino, e a sua copa estende-se sobre o mundo. A árvore unifica os três níveis do Cosmos como um «axis mundi»: Céu-Mundo dos Deuses; Terra-Mundo dos homens; Mundo subterrâneo – Mundo dos mortos, das energias ctónicas.
A Árvore Cósmica situa-se no Centro do Mundo, noOmphalos. É o pilar central, a coluna do centro que sustém o mundo, o «axis mundi».
A árvore encontra-se, por conseguinte, num lugar sagrado. Os antigos lugares sagrados formam um microcosmos: uma paisagem de pedras, de águas e de árvores. A pedra indica aqui a duração e representa a realidade por excelência, a indestrutibilidade, o estático. A árvore com a sua renovação periódica representa o poder sagrado do vivente; a água e a fonte representam as forças secretas do interior da terra, a semente, a purificação. Essa paisagem microcósmica reduz-se a um único elemento essencial: a árvore ou o pilar sagrado, que simboliza o Cosmos.
É pela Vontade e pelo Espírito que a árvore da Alma se eleva das trevas do mundo até à luz suprema de Deus. (Século XVIII)
2. A Árvore da Vida
A árvore é a manifestação da vida; nela manifesta-se o princípio vital do Universo. Por um lado a árvore é vista como a incarnação do vital porque representa, através do ciclo das estações do ano, o retorno à regeneração e, por outro lado, porque as coníferas sempre verdes são um incarnação dos princípios inesgotáveis e eternos da Vida. Por isso é que se mantém, ainda hoje, em alguns lugares o rito de plantar uma árvore aquando do nascimento de uma criança, a qual lhe transmite a sua vitalidade. Além disso, a árvore surge em muitas mitologias como portadora de imortalidade. Tal é o caso da planta «Soma» dos Vedas ou do «Haoma» do Avesta, que, representados como fonte ou bebida divina, podem outorgar a Vida Eterna. Os frutos da Árvore da Imortalidade são sempre difíceis de alcançar. Estão custodiados e protegidos por monstros como, por exemplo, a Árvore das Hespérides ou a Árvore da Vida no paraíso hebraico. Estas árvores encontram-se no fim do mundo ou no Céu, como é o caso do pessegueiro P´na mou dos Chineses, o qual oferece os frutos da imortalidade, ou em algum outro lugar inacessível, como a Planta da Vida que Gilgameh tem de colher no fundo do oceano.
Resumindo, encontramos as seguintes três relações:
Homem e Herói em busca da Imortalidade
Árvore da Vida
Serpente ou monstro que a custodia
Encontramos este contexto em muitas tradições. O simbolismo é claro: a imortalidade é difícil de obter e encontra-se concentrada numa Árvore ou Fonte da Vida situada num lugar de difícil acesso. A árvore está custodiada por um monstro, e a vitória sobre este monstro tem um significado iniciático: o herói, após ter pedido concelho aos «seres sábios», terá de encontrar o caminho e de passar um conjunto de provas, através das quais conquistará o direito à imortalidade.
A árvore também incarna a Vida Eterna, porque há árvores que vivem mais de 1000 anos, parecendo aos olhos dos humanos praticamente imortais.

3. A Árvore do Conhecimento
A Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento encontram-se directamente relacionadas, como veremos mais adiante. Sabedoria e Conhecimento são tão difíceis de alcançar como a própria Imortalidade. Há que realizar imensos sacrifícios e conseguir grandes vitórias. Há que entrar em contacto directo com a Árvore do Mundo, a qual através da sua função como axis mundi possibilita a ascensão ao Mundo Espiritual e à Visão Mística. A árvore serve como canal para o conhecimento. É o eixo da intuição, a fonte da inspiração.
Dedicar-nos-emos agora a algumas das mais importantes árvores sagradas, examinando-as a partir destes três aspectos.

“Encontramos este contexto em muitas tradições. O simbolismo é claro: a imortalidade é difícil de obter e encontra-se concentrada numa Árvore ou Fonte da Vida situada num lugar de difícil acesso.”


O Simbolismo da Árvore nas Diferentes Culturas
1. Os Germanos: Yggdrasil
Mircea Eliade descreve a Yggdrasil como sendo a Árvore Cósmica «per se». Esta árvore encontra-se na posição vertical unindo os três mundos. As suas raízes penetram no coração da Terra, no Reino do Gigantes, no mundo subterrâneo dos Deuses e no Reino dos Mortos. Dessas raízes nascem três fontes, das quais uma é um Poço de Juventude (Urd), e a outra, a fonte «Mimir», proporciona sabedoria e conhecimento. A terceira fonte chama-se Hvergelmir, da qual partem todos os rios do mundo. Odim deixou ali um olho e ali regressa sempre para refrescar a sua sabedoria. O tronco de Hvergelmir é o mundo dos homens (Mihgard) e a sua copa conforma o céu dos Deuses (Asgard). Yggadrasil também é descrito como Freixo do Mundo ou como carvalho. Oferece habitáculo a alguns animais: cabra, águia, veado e esquilo. Nas suas raízes vive um dragão (Hidhog) que tenta derrubá-la. Yggdrasil porta em si tanto os aspectos da Árvore Cósmica, da Árvore da Vida, como da Árvore do Conhecimento.
2. Índia: Hinduísmo e Buddhismo
a) O Ashvatha do Bhagavad-Gita
Nos textos mais antigos da tradição da Índia (por exemplo na Atharva-Veda), o cosmos aparece sob a forma de uma grande árvore. Nos Upanishades o Universo surge como uma árvore invertida, «arbor inversa».
No Bhagavad-Gita (XV, 1-4) a Árvore Cósmica não só representa o Universo, como também a posição do homem no mundo.
O Ashvatha é um símbolo de Pakriti. A origem da Criação é Deus; por isso a árvore tem as suas raízes voltadas para cima. Os ramos são os diferentes estádios da Criação e, por isso, estendem-se para baixo. As folhas são os hinos e as regras de sacrifícios dos Vedas, através das quais a árvore, ou seja a Criação, se mantém viva. O Ashvatha é imperecível porque Prakriti também o é.
b) O nascimento de Buddha sob a árvore Ashoka
O Ashvatha, além de árvore cósmica desempenha, como árvore do conhecimento, um papel mais importante na vida de Buddha. Segundo diferentes lendas, toda a história da vida de Buddha esta intimamente relacionada com árvores, sob as quais se realizam sempre os acontecimentos de maior significado.
Quando Maya (mãe de Buddha) sentiu que havia chegado a hora do nascimento do seu filho, dirigiu-se ao jardim de Lumbini, que era um bosque sagrado, porque este era o lugar onde deveria nascer o futuro Buddha. Parada, com uma mão apoiada na árvore Ashaka, deu à luz o seu filho.
c) A Iluminação Sob a Árvore Bodhi
Ainda criança, Buddha tinha experimentado uma grande felicidade à sombra de uma macieira. Recordando-se disso, sentou-se nas margens do rio Nairanjana, num bosque sagrado. Após ter dado sete voltas em torno da árvore Bodhi e de lhe ter feito várias oferendas, sentou-se ao lado de seu tronco com a firme decisão de não se levantar antes de receber a Iluminação.
Meditou, e então, apareceu Mara, o demónio tentador. Buddha suportou todas as tentações, e mesmo quando os monstros terríveis, demónios e bestas o atacavam, permaneceu imóvel. Por fim recebeu a Iluminação.
Esta confrontação com os poderes do mal representa a descida de Buddha ao mundo subterrâneo através do canal da árvore. Nos mitos heróicos é frequente o herói, antes de alcançar o conhecimento ou a imortalidade, ter de descer ao mundo das sombras (por exemplo, Herácles). Segundo Carl Gustav Jung isto significa, do ponto de vista psicológico, que o herói tem que se confrontar com as suas próprias sombras e a sua natureza instintiva reprimida antes de finalizar as provas, para poder integrá-las na sua consciência.
d) A Morte Sob as Árvores de Sala
Quando Buddha sentiu que as suas forças o abandonavam e que a morte se aproximava, quer dizer a Libertação Total, dirigiu-se para um bosque sagrado de árvores de Sala nas margens do rio Hiranyavati. Aí, ordenou a seu discípulo Ananda de preparar um leito à sombra de duas árvores. E, foi à sombra destas árvores gémeas que Buddha abandonou este mundo. No momento em que Buddha, em profunda meditação, alcançou o Nirvana, ao qual renunciou, as árvores de Sala começaram a florir apesar de não ser essa a estação indicada, e deixaram cair as suas flores sobre o corpo inanimado, que se juntaram àquelas vindas do Céu.

3. Mesopotâmia: Kiskanu
As tradições babilónicas falam-nos de uma árvore no centro do mundo, já conhecida dos Sumérios:
“Em Eridu cresceu um Kiskanu negro, criado num lugar sagrado; o seu brilho é como os raios de lápis-lazúli; estende-se até ao Apsu. É este o sítio onde Ea deambulava no Eridu exuberante; o seu domicilio é um lugar de repouso para Baú…,”
Kiskanu reúne todas as condições da Árvore Cósmica: cresce no centro, num lugar sagrado. Eridu era a cidade sagrada do deus Ea. O brilhante azul profundo – como a lápis-lazúli – indica a sua função cósmica: representa o espaço cósmico, a noite estrelada. Além disso expande-se na direcção do Apsu, o mundo subterrâneo, o abismo primordial. Isto significa que se trata de um «arbor inversa», quer dizer uma árvore invertida, que tem as suas raízes no céu e estende os seus ramos sobre a Terra. Kiskanu também nos mostra a sua função como Árvore da Vida, por ser o domicílio dos deuses da fecundidade e da formação (artes, agricultura, escrita, etc.) e o lugar de repouso da mãe da Ea, a deusa Baú, que é uma divindade da abundância, dos rebanhos e da agricultura.
Nas representações do Antigo Oriente, o Kiskanu é o protótipo das árvores sagradas babilónicas. Está sempre acompanhado de símbolos diferentes, emblemas ou animais heráldicos, o que indica a seu papel cosmológico.
Como Árvore da Vida, o Kiskanu é representado sob a forma de tamareira: a tâmara era o alimento básico mais importante.
4. Irão: Gaokarana e Haoma
No Avesta temos a árvore Gaokarana que foi criada por Ahura Mazda. É a árvore dos dez mil remédios. Cresce numa ilha do lago divino Vourakasha, onde também brotam mil outras plantas curativas.
Gaokarana é o Haoma celestial que outorga a imortalidade. Ahrimán criou um lagarto, que foi o contra-peso à criação de Gaokarana. A missão do lagarto era de causar dano a esta árvore milagrosa (comparar com o dragão Nidhog que rói as raízes do Yggdrasil).
O seu reflexo na Terra é o Haoma terrestre, que cresce nas montanhas e que foi plantado ab origine no monte Haraiti.
5. China: Kien-Mou
Para os Chineses o Centro do Mundo foi representado através de Kien-mou (madeira vertical). A madeira era na China o 5º elemento e tinha a mesma importância que a terra, a agua, o ar e o fogo.
Kien-nou é a árvore da renovação, assim como do início absoluto, o início do Mundo. Reúne as «Nove Fontes» (o reino dos mortos) com os «Nove Céus» e os mundos inferiores com os seus níveis mais elevados. Pelo seu tronco oco ascendem e descendem os soberanos, que são os faróis da humanidade, os intermediários entre o céu e a terra.
6. Egipto: Sicómoro
Desde os tempos mais remotos que, no Egipto, as árvores são objecto de veneração divina. A leste do céu encontra-se o alto Socomoro, uma árvore cósmica, sobre a qual os deuses estão sentados. Em frente, a oeste, na fronteira do deserto, vivia a «Senhora do Sicômoro», a deusa vaca Hathor, criadora do Mundo e de tudo o que nele existe. Cheia de compaixão desceu sobre a folhagem da árvore, saudou os recém-mortos e deu-lhes as boas-vindas com água e pão, alimento e bebida com que lhes assegurou a vida depois da morte. Nos ramos do sicômoro sentam-se as almas dos mortos em forma de pássaros. Através da ajuda da árvore sagrada, as almas regressam ao seio do mundo divino dos seres eternos.
7. Grécia
No mundo pré-helénico egeu, a grande Deusa-Mãe Rhea, como representante do matriarcado, encontra-se sempre em estreita relação com o culto da árvore. A árvore é a fonte abundante da fecundidade e, por isso, Rhea está representada junto a uma planta simbólica ou debaixo da Árvore da Vida. A relação Deusa-Árvore é a expressão de um simbolismo central. A Grande Deusa é a personificação da fonte inesgotável da criação. A árvore exprime o espaço na sua regeneração eterna. A árvore também é sempre, como vimos no início, um símbolo do Centro do Mundo, o axis mundi.
A relação Grande-Deusa-árvore mostra-nos que a vida, a fecundidade, o crescimento e a imortalidade têm a sua origem na Vida-Una, no princípio vital universal.
Na mitologia clássica atribui-se a cada deus uma determinada árvore e verifica-se que esta está sempre em estreita relação com o deus a que corresponde. Algumas correspondências:
Deus           Árvore
Zeus             carvalho
Poseidon      freixo
Hades           mirto
Hera             macieira, salgueiro
Atena           oliveira
Apolo           loureiro
Dionísio       videira, figueira, pinheiro
Propersina   álamo
O carvalho: No Epiro, nordeste da Grécia, localizava-se o oráculo mais antigo da Grécia, o carvalho sagrado de Dodona. O oráculo era dirigido por três sacerdotisas, as Peleidades ou Peristeres, que significa «pombas». Tinham por missão interpretar o som das folhas originado pelo vento. Segundo Platão, as sacerdotisas realizavam os oráculos em êxtase.
O culto dos carvalhos e as mitologias acerca do carvalho estavam muito difundidos em toda a Europa na era pré-cristã. Nos tempos arcaicos acreditava-se que o carvalho dera nascimento aos homens; assim, os Arcádios diziam que eles próprios tinha sido carvalhos antes de serem homens. Encontramos uma tradição similar entre os Germanos: segundo esta, os primeiros homens foram formados de duas cepas de árvores. A ideia de que os homens provêm da madeira pertence à tradição europeia. Quiçá isto depende do facto de que da fricção de duas achas se pode gerar fogo. Desta forma nasceu agni, o deus hindu do fogo. E o homem porta em si a chispa, o fogo que Prometeu roubou do Olimpo num tronco oco.
A oliveira: Para os Gregos a oliveira proporcionava produtos importantes: as azeitonas e, sobretudo, o azeite, que não só era utilizado na cozinha, mas também na iluminação e nos cuidados do corpo. Era a árvore sagrada de Atena, a qual fez crescer a primeira oliveira na Acrópole aquando da sua disputa com Poseidon por Ática.
Para os Hebreus, a oliveira era também uma árvore sagrada. Consideravam-na a dádiva mais valiosa de Jahvé. Transmitiram aos Árabes a veneração por esta árvore e, no Islão, a oliveira é a Árvore do Mundo por excelência, o centro e pilar de apoio do Mundo.
8. Roma
Em Itália existem inúmeras tradições sobre carvalhos sagrados. As sete colinas de Roma estavam cobertas de bosques de carvalhos dedicados a Júpiter. O fogo sagrado de Roma, mantido pelas Vestais, só podia ser alimentado com madeira de carvalho.
O figo também desempenhava um papel muito importante. Em Roma veneravam-se muitas figueiras sagradas. Uma figueira no Foro Romano foi venerada de uma forma muito especial, pois reza a tradição que alimentou os fundadores do Império. Estava dedicada a Marte por este deus ter procriado juntamente com Rhea Sílvia os gémeos Rómulo e Remo.
As «Metamorfoses» de Ovídio são uma colectânea de inúmeras tradições que narram a transformação mágica de uma ninfa numa árvore. Na época de Ovídio estas tradições eram apenas conhecidas como fabulas; não obstante, reflectiam seguramente crenças muito antigas. Estas narrações baseavam-se no conhecimento dos sábios da antiguidade acerca dos elementais e dos génios habitantes de árvores e plantas.
As árvores, as plantas e as ervas tinham uma grande importância para os Celtas. Segundo eles, toda a natureza estava animada e penetrada por forças energéticas. Através dessa consciência entendiam a magia das plantas e obtinham conhecimentos muito vastos.
Os templos dos Celtas eram bosques sagrados. Antes da conquista romana não tinham templos construídos. César, no seu «De bello gallico», fala-nos do «locus consecratus», do «lugar sagrado». Refere-se ao bosque sagrado, para o qual também se utiliza a expressão «nemus» (=bosque). O santuário típico celta e, então, o nemeton, o santuário sagrado ou celestial do bosque. O nemeton era um lugar de intercâmbio sagrado entre o mundo divino e o mundo dos homens. Todo o nemeton é um omphalos, quer dizer, um centro do mundo.
No centro dos rituais druidas encontravam-se carvalhos, nos quais crescia o visco. A poda do visco realizava-se no sexto dia do ciclo lunar. O druida, sacerdote dos celtas, cortava pessoalmente os ramos com uma foice de ouro. A foice de ouro continha símbolos lunares e solares: o ouro como símbolo do Sol e a foice como símbolo da Lua.
As árvores de culto dos druidas eram: o teixo, a aveleira, a sorveira e o carvalho. O carvalho é um símbolo de conhecimento e poder. Quando nele cresce o visco, isso significa que o deus está presente nessa árvore. O visco é considerado um símbolo da força sempre fresca da vida, porque enquanto, que no Inverno todas as outras plantas se encontram num estado de recolhimento, quase sem vida (a seiva não circula pelo tronco nem pelos ramos, mas está concentrada debaixo da terra numa parte da raiz), o visco porta nos seus ramos frutos brancos, incarnando assim a força juvenil da vida eterna, e representando a imortalidade.
A macieira também desempenhava um papel muito importante. A ilha de Avallon era uma ilha mística, cheia de mistérios, situada a Oeste e em cujo solo havia inúmeras macieiras que outorgavam a imortalidade, o conhecimento e a sabedoria. Na mitologia grega, as Maças ou Pomos das Hespérides têm o mesmo significado.
9. Judaísmo: A Árvore Sephirot
Nos ensinamentos esotéricos dos Judeus, Kabala, fala-se da árvore invertida como descrição do processo descendente da Criação. A Árvore Sephirot é uma imagem da Criação, um diagrama dos princípios que regem todo o Universo. Representa a descida das energias divinas no mundo material e a sua posterior ascensão.
No cimo da árvore, a um nível totalmente espiritual, encontra-se a Coroa, Kether. É a Unidade, da qual surgem todas as outras nove emanações do Divino, os Sephirot, as esferas de Deus. Os Sephirot são atributos, forças e possibilidades do Divino, que nascem da energia primordial e que encarnam paulatinamente na matéria.
A Árvore Sephirot é formada por três colunas verticais. Na ponta da coluna do meio encontra-se Kether; no cimo do pilar direito encontra-se Chochma, que vem directamente de Kether. Chochma também é, de uma certa forma, Abba, o Pai Cósmico ou princípio masculino primordial. Na ponta do pilar esquerdo encontra-se Binah, que de certa forma também é Aima, a Grande Mãe ou princípio feminino primordial. Chochma e Binah representam, assim, a primeira dualidade, e os três Sephirot juntos (Kether-Chochma-Binah) formam a Tríade Cósmica
A coluna do meio, em cuja ponta se encontra Kether, termina em Malkuth, o reino. Malkuth é a copa da árvore invertida, a manifestação realizada e materializada, ou seja o mundo físico que nos rodeia.
Outro símbolo exotérico judeu é o Menorah, o candelabro de sete braços (a árvore Sephirot tem 7 níveis ou 7 Sephirot abaixo da Tríade Cósmica). A Menorah tem a mesma forma da Árvore da Vida mesopotâmica com 7 ramos principais, que também correspondem aos 7 planetas.
10. Cristianismo: A Árvore do Conhecimento e a Árvore da Vida
Também na mitologia cristã as árvores desempenham um papel muito importante. As tradições mesopotâmicas serviram de base para as árvores bíblicas que encontramos no Jardim do Éden: a Árvore da Verdade e a Árvore da Vida.
Segundo a conhecida lenda bíblica, Eva foi seduzida pela serpente a comer da Árvore do Conhecimento, o que trouxe como consequência a expulsão do Paraíso. Existem muitas interpretações acerca deste tema. Como filósofos consideramos essa falta contra uma lei divina um acto iniciático visando a conquista da consciência. A serpente – que é símbolo da sabedoria na maior parte das tradições – motiva os homens a abrirem os olhos e a chegarem ao conhecimento. Deus desterra Adão e Eva, quer dizer que, a partir deste momento, o homem é responsável por si mesmo e tem que ganhar a sua imortalidade.
A cruz em que o avatar Jesus Cristo é sacrificado ou, melhor dito, em que ele próprio se sacrifica representa, segundo uma lenda muito difundida na Idade Média, uma relação secreta entre a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento.
Para os cristãos a cruz tem a função da Árvore do Mundo: é portadora do Mundo, encontra-se no centro, no lugar que relaciona o céu, a terra, e o mundo subterrâneo. Em diferentes versões a madeira da cruz tem 7 degraus, que representam os 7 céus.
11. México
Também no Códex Borgia encontramos a representação de uma Árvore da Vida: no Centro, lugar onde se cruzam todas as direcções do espaço, eleva-se a árvore colorida do corpo de uma deusa da Terra. A um dos seus lados está Quetzalcoatl, «a serpente emplumada», que reúne aspectos subterrâneos e celestes e cuja história mítica fala da sua morte, renascimento e vida eterna como planeta Vénus. Do outro lado está Mauilxochitl, que é idêntico a Xochipilli, o príncipe das flores.
Esta árvore reúne os elementos simbólicos da fecundidade e da eternidade, quer dizer, é uma expressão do «bios» e do simbolismo da Árvore Cósmica.
Conclusão
Com esta breve visão da América concluímos este trabalho acerca do simbolismo das árvores em algumas culturas. Porem há ainda muito que estudar sobre o tema. O que aqui se fez foi uma abordagem modesta e incompleta visando descobrir alguns aspectos de uma temática assaz complexa. A «irmã árvore», como é conhecida no seio dos grupos ecológicos da actualidade, pode-nos ensinar imenso. Somente temos que decifrar a sua mensagem. Por isso este trabalho pretende ser mais um contributo para a compreensão de uma Ordem do Mundo que una o Homem à Natureza.
Gudrum Gutdeutsh
Nova Acrópole Alemanha